Resenha: Jogo Justo (Fair Play)
Depois de um longo tempo desaparecida, hoje eu trago para vocês a minha análise sobre o novo sucesso da Netflix, o filme “Jogo Justo”.
Minha opinião:
Confesso
pra vocês que eu tenho a leve impressão de que, a cada dia que passa, está ficando
mais difícil achar um longa envolvente o suficiente, capaz de reter nossa atenção e nos fazer ter vontade
de dissecar cada pequeno aspecto da trama. O que comumente vemos é um mar de conteúdos tão facilmente processáveis, que sequer nos causam qualquer impressão ou reflexão, tudo é puro entretenimento.
Jogo Justo
vai na contramão dessa suposta tendência, trazendo uma série de reviravoltas e uma
dicotomia de emoções, já que somos levados a acompanhar a vida de um casal aparentemente
feliz, que acaba sendo consumido pelo próprio ego e metendo os pés pelas mãos
em diversos momentos no desenrolar dos acontecimentos.
Emily e
Luke formam um casal bonito, cheio de química e sonhos compartilhados, embora
tenham que conviver com uma situação desagradável: o relacionamento deles não
pode ser assumido por conta da política adotada na empresa na qual trabalham, o
que os leva a adotar uma série de comportamentos que visam manter em segredo o
amor dos dois. Tudo só fica mais difícil quando Emily é promovida, colocando em
xeque a carreira e os planos de Luke e tudo começa a ir por água abaixo.
Nesse
contexto, ressalto uma das primeiras conversas que o casal teve no banheiro
após um banho juntos, onde eles cogitam uma disputa de cargo entre ambos e Luke
brinca dizendo que se ele fosse escolhido, pensaria um pouco e escolheria o
trabalho em detrimento do noivado dos dois. Apesar do tom jocoso, isso certamente
deve ser levado em consideração na análise do que vem a seguir.
Embora nos primeiros 15 minutos de filme eles pareçam extremamente apaixonados, logo de cara, me fiz o seguinte questionamento: como eles pretendiam continuar juntos, se a política da empresa permaneceria a mesma, os dois já estavam num relacionamento há dois anos e nenhum deles pretendia renunciar à carreira atual para que pudessem se casar? Pois é, meus amigos...às vezes a sementinha da dúvida já está plantada, aguardando o momento apropriado para colocar à prova tudo que assumimos como verdade. Não há como fazer planos a dois se não estamos dispostos a fazer certos sacrifícios que viabilizarão a continuidade da relação. Sendo assim, tentei avaliar se o relacionamento deles realmente mudou por conta de uma disputa de poder, ou se a fragilidade já estava ali e foi manifestada quando outras questões entraram no contexto.
O mais
interessante, é que o filme não nos mostra outros pontos de vista da estória,
senão dos protagonistas. Em todas as cenas, pelo menos um deles está presente.
Assim, podemos tentar fazer diversas análises das pessoas e acontecimentos paralelos no
entorno dos dois, sem nunca ter uma confirmação do que estamos pensando. Só
podemos contar, única e exclusivamente, com a percepção dos fatos através dos
olhos de Emily e Luke. Esse gostinho de mistério só deixa tudo mais intrigante, uma vez que não conseguimos definir com clareza de que lado estamos e qual deles tem uma percepção mais acertada da realidade. Diante disso,
apesar de a trama ter seu propósito, é o tipo de filme que vai nos possibilitar
interpretá-lo pela nossa ótica.
Pra mim,
para além das questões de ego, pressão social, ambição e gênero, o filme
retrata claramente como uma relação aparentemente normal, tem o potencial de se
tornar tóxica para ambos. Podemos observar com o decorrer da estória, duas
pessoas comuns se tornando extremamente nocivas para o parceiro e para si próprios,
cada um sendo capaz de despertar no outro aquilo que há de pior. E digo mais:
talvez aquele nível de toxicidade sempre estivesse presente na relação, mas
precisou de um acontecimento específico para desencadear os sucessivos
comportamentos destrutivos dos dois.
Acho que
ficou claro que a intenção da direção não era escolher um vilão e, como toda
relação abusiva, ambos os lados contribuem para contexto. Porém, como também é
de praxe, uma das partes acaba cedendo mais facilmente e sendo continuamente subjugada,
como foi o caso de Emily. Para que o relacionamento continue, um deles tem que ceder no ápice da crise e ela acaba sendo a pessoa que sucessivas vezes desempenha esse papel,
assumindo culpas que não são suas, questionando o próprio valor perante o noivo
e a sociedade e fazendo um esforço maior para contornar a situação. Luke, por
sua vez, só volta atrás quando percebe que ela está prestes a se
libertar, deixando-o sozinho para lidar com seus aspectos mais narcisistas, sua
falta de segurança e autodomínio. Na minha opinião, a cena final - ALERTA DE SPOILER -, onde Emily consegue finalmente quebrar o ciclo de abuso e dá aquele suspiro de puro alívio e determinação, o filme consolida todas as impressões que eu tive no seu desenrolar.
Em suma, é um filme
cheio de camadas e até de gatilhos, então se você não está disposto a fugir no óbvio e lidar com uma trama mais densa, essa talvez não seja a
melhor opção para um sábado à noite. Do contrário, vale muito a pena conferir.
Um abraço e até breve!



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